


Vamos lá. Deficiente visual de nascença. Aprende o alfabeto com muito esforço; depois vai para a Escola especial, com alguns equipamentos próprios; chega na faculdade, estuda com ajuda de amigos e das novas técnicas computadoriais; forma-se, faz concurso nas vagas de deficientes, aprovado, assume o cargo de Juiz. Como ele lê? Com a ajuda de computador ou de algum assessor.
Decide com convencimento pessoal e diante do que aprendeu. Heróico? Sim, todo mundo acha.... e o Tiririca?
O que importa se o cidadão é analfabeto?
No mundo legislativo, da elaboração das leis, o que é essencial é a sensibilidade para o meio ambiente social, envolvendo todos os aspectos, incluindo a miséria, o analfabetismo, a carência educacional, a moral deturpada, os valores da classe miserável, enfim, o que se quer é que alguém represente o analfabeto (em todos os aspectos de representação e do analfabetismo). Quem melhor representa, senão ele mesmo?
Critica-se que o palhaço Tiririca é analfabeto e foi eleito deputado federal. O mundo caiu, como fica a Câmara Federal, meu Deus, dizem alguns. Do mesmo modo, por lá passou Agnaldo Timóteo, por lá passa um monte e um fecho de ladrões, de putas, de corruptos, de tarados, de analfabetos culturais e sociais e ninguém diz nada.
Em toda casa legislativa é um saco de gatos, gatos siameses, de pelos nobres, quando deveria ter o gato de rua, sem pelo, ferido, doente, com fome.
É cínico se falar de Tiririca e não se falar em tantos outros imbecis que são eleitos para a Câmara dos Deputados, para o Senado Federal, para as Assembléias Legislativas, para as Câmaras de Vereadores. Não cito, não arrolo para não criar problemas, mas conheço um monte e um fecho de parlamentares que não deveriam sequer pensar em se candidatar, quanto mais serem detentores de mandato e renovados, como agora em 2010.
Deixem o Francisco Everardo Oliveira trabalhar, pode ser que a gente se surpreenda,pelo menos, o hábito de vender seu voto por cargos, nomear amigos/parentes para cargos federais, deviar verbas públicas, fraudar licitações e tantos outros hábitos comuns aos parlamentares, tenho certeza, o Tiririca não vai ter o fazer.
Vamos aguardar, um dia antes de Iemanjá a gente presencia a posse e no dia de Iemanjá a gente vai ver o homem trabalhar.
Se levou ao veterinário e ele afirma que assim mesmo, o animal tem “vida útil” e que na velhice isso é “comum”. Indica medicamentos e acompanhamento. Não pode mais dar determinados tipos de alimentos e nem permitir determinados comportamentos. Levar para passear ,só em redor da casa, pois o coração pode não agüentar. Refrigerante com cerveja e água, nunca mais, pois o fígado está em frangalhos.
E olha que o NECO adorava essa mistura, principalmente nos finais de semana, depois do churrasco semanal.
Correr atrás da bola?Nunca mais, não jogues bola para ele, corre o risco de ser atropelado e vicia, vai querer correr atrás da bola toda hora, pois depois de velho, tem que ter uma mania.
Colocar em um canto, dar alimentos, atenção e carinho e esperar a hora da morte. Ou então, sugere, sacrifique, a gente dopa, ele dorme, morre sem sentir, é melhor.
Não é que todo mundo concorda? A esposa acha ótimo pois assim ele não fica “sofrendo”, a sala não fica com fedor de xixi de cachorro, as poltronas não ficam com pêlo, tudo sujo... sem cachorro, sem fedor, a empregada não reclama e a gente economiza nas compras e nos remédios.
O filho fica neutro, mas concorda, afinal é alérgico a pêlos, diz ele, fungando.Funga quando vê formiga, quando sente cheiro de gato e de cachorro, diz.
A filha acha ótimo, pois o NECO não mais latirá para os amigos, os amigos poderão freqüentar a casa, não será mais mordida quando bater no NECO, enfim, a solução está dada.
Eu, como fico?
Gosto de ficar em casa com o cachorro, é minha desculpa para não ir para a rua; é a minha desculpa para não receber ninguém em casa, o cachorro é brabo; gosto de sair para passear com ele; gosto que ele suba na cama; gosto de dar banho nele; gosto de escova-lo; gosto de falar com ele....
Mas, a familia?
Não se pode brigar com a esposa, pois ela é quem vai cuidar da gente quando ficar velho, ela quem pode acobertar os nossos deslizes, ela que pode infernizar a vida da gente. Os filhos, idem, se ficar viúvo – Deus não queira, quero ir antes dos cachorros, dos demais animais, da esposa, dos filhos – quem vai cuidar da gente são eles, em caso contrário podem nos jogar em um asilo ou sabe lá o quê. Tens-se que ir com os outros, guardar os sentimentos, controlar a raiva, esconder a mágoa e concordar.
O veterinário – que se diz médico – me sugere uma ação bastante conhecida. Agora temos UTI animal, a gente coloca o NECO lá, mais repousado, mais equipado. Quando adoecer, traga. Uma enfermeira – na verdade uma técnica em enfermagem – me chama e diz: deputado, a gente coloca lá, depois de uma semana eles dizem que o animal tem problemas de pulmão (pneumonia pequena), enchem de antibiótico; aí dizem que os rins não estão respondendo; depois vem a infecção generalizada; aí sugerem desligar os aparelhos para uma morte mais digna, sem sofrimentos.É a morte legalizada.
Fico pensando.
Ninguém pensa na alma do animal. Os olhos são espelhos da alma, o cachorro me olha com olhos de gente, com alma. Ninguém se lembra de quando chegou em casa? Pequeno, peludo, lambendo a todos e todos contentes? O tempo que fez companhia com os meninos quando pequenos? Correndo atrás da bola, brincando? O tempo que gastou protegendo a casa, latindo para todos? Os ladrões que botou para correr?
A companhia que nos fez? Os carinhos e carícias mútuas? Ninguém se lembra?
Parece que o conforto, a comodidade, a juventude, o novo, o imediatismo, são conceitos que se incorporaram definitivamente ao estilo de vida atual, ninguém quer lembranças, memórias, passado, velhice. O que vale é o atual, agora.
No agora, fico agora chorando, lembrando-me que essas reflexões reais, sob forma de ficção, foram feitas inspiradas no poema/conto de meu irmão Melquisedeque Viana, o Deque, nos anos 60/70. Bons tempos, que eu me lembre sempre.
Meu cachorro velho.... não tenho mais palavras!
Obrigado por tudo!
É preciso apender a ser só! E aprenderei, magoado, contido, mais triste, menos sociável.... mais viverei....e me lembrarei...